TAL A FUGA


MUDANÇA

Caríssimos, depois de muito resisitir, mudei finalmente para o Blogger.

No Tal a Fuga II vocês poderão encontrar (não muito) mais do que escrevia muito raramente neste Blog.

 

 



Escrito por Jean Cristtus Portela às 04h12
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A versão original deste poema (setembro de 2002) tinha uma epígrafe de Jean Cocteau. Hoje, ao relê-lo, achei que, melhor do que ler uma epígrafe de Cocteau neste poema, seria curioso tentar imaginar que epígrafe teria sido nele empregada afinal. Epígrafes: essas coisinhas luzentes que dependuramos só de birra.

 

 

A PARTEIRA À PARTURIENTE

 

 

A parteira à parturiente:

que se foda! (ferrugem

cínica plumagem)

 

e segue:

a água estava boa?

nunca é a mesma, Heráclito disse

 

Pra quê mágoa?

tesão limítrofe

qual filtro puseste em minha água

 

Ócio concupiscente , demora estudada?

 

Teu o desapontamento como causa

ó, parteira belicosa

de fetiche outonal, ardor viário

 

que deita o pente fino

na peculiar forma de vida

chamada “enrustido”

 

Um mimado antimimo.

 

 



Escrito por Jean Cristtus Portela às 05h41
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Brigitte dixit

"Quand les femmes étaient coincées, j'étais décoincée. Maintenant qu'elles sont décoincées, moi je suis coincée".

BRIGITTE BARDOT, 72 ans, à l'émission de Mireille Dumas « Vie privée, vie publique », diffusée le 27 septembre 2006

.

.

.

... Et puis quoi encore?



Escrito por Jean Cristtus Portela às 20h40
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




De la jeunesse

La parole de Desproges est le comble du comble du comble du comble... du langage. Ça déchire !


La jeunesse, toutes les jeunesses, sont le temps kafkaïen où la larve humiliée, couchée sur le dos, n'a pas plus de raison de ramener sa fraise que de chances de se remettre toute seule sur ses pattes.

L'humanité est un cafard. La jeunesse est son ver blanc.

Autant que la vôtre, je renie la mienne, depuis que je l'ai vu s'échouer dans la bouffonnerie soixante-huitarde où de crapoteux universitaires grisonnants, au péril de leur prostate, grimpaient sur des estrades à théâtreux pour singer les pitreries maoïstes de leurs élèves, dont les plus impétueux sont maintenant chef de choucroute à Carrefour.

Mais vous, jeunes frais du jour, qui ne rêvez plus que de fric, de carrière et de retraite anticipée, reconnaissez au moins à ces pisseux d'hier le mérite d'avoir eu la générosité de croire à des lendemains cheguevaresques sur d'irrésistibles chevaux sauvages.

Extrait de « Non aux jeunes », de Pierre Desproges, dans « Chroniques de la haine ordinaire ».

* * *

A fala de Desproges é o cúmulo do cúmulo do cúmulo do cúmulo... da linguagem. Um desbunde!


A juventude, todas as juventudes, é o tempo kafkiano no qual a larva humilhada, deitada de costas, não tem mais condições de meter o bedelho onde não é chamada do que chances de se por sozinha sobre as próprias patas.

A humanidade é uma barata. A juventude, seus ovos.

Tanto quanto a sua, eu renego a minha, depois que a vi fracassar na bufonaria de 68, em que encardidos universitários grisalhos, arriscando suas próstatas, trepavam em estrados pra canastrões macaqueando as palhaçadas maoístas de seus alunos, dentre os quais os mais impetuosos são agora responsáveis pelo chucrute que é feito no Carrefour.

E vocês, jovenzinhos de hoje, que só sonham com a grana, a carreira e a aposentadoria antecipada, dêem ao menos a esses bundões de ontem o mérito da generosidade de terem acreditado em amanhãs cheguevarelescos sobre irresistíveis cavalos selvagens.

Trecho de “Não aos jovens”, de Pierre Desproges, em “Crônicas do ódio cotidiano”.



Escrito por Jean Cristtus Portela às 02h05
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




L’Épiphanie dévoilée

À la télé, un mec noir - ex-rappeur, aujourd'hui religieux dévoué, prêt à épouser une fille blanche qui lui regarde intensément, la mine épanouie - dit qu’un jour, il y a longtemps, il a sérieusement pensé à l’existence de Dieu. Enfin, quand cette pensé est devenue une obsession, le jeune homme nous raconte qu’il a décidé de chercher le bon Dieu dans une Bible. Quel manque d’imagination! Ou excès?

Escrito por Jean Cristtus Portela às 04h31
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Melhor que o teor de todas as inteligências

Eis um poema de Abou-Nôwas (na grafia anglo-americana, Abu Nuwas) que traduzi do francês pra encher uma tarde que não queria acabar... Nôwas é um poeta árabe de origem persa, que morreu no final do século 9. Personagem das Mil e Uma Noites, ele é o poeta do vinho, das queixas, da ironia fina e da putaria. Simpático, o cara.

O original francês, agora estou (novamente) com preguiça de transcrever. Já o texto árabe, confesso que não o vi mais mouro. Aprender o árabe: eis um desafio para o futuro e que seria algo muito interessante para entender a cultura francesa (!).


 
OBJETO DE INSPIRAÇÃO

Melhor que o teor
de todas as inteligências,
melhor que uma cidade
que o tempo fez perecer,

melhor que as ruínas
das quais o século prolongou a existência
para que as lágrimas e a tristeza
aí pudessem fluir comodamente:

uma gazela macho – cujo olhar
cobriu de descrédito
todas as outras –
ternamente sonolenta
como estupefata por sua própria beleza.

O sol – pura claridade
sobre uma vastidão de dunas
isentas de qualquer impureza – quando ele se põe
atrás de um ramo forrado de folhas,
não se mostra seu igual?

 

Abou-Nôwas

Tradução de Jean Cristtus Portela

(La poésie arabe. Anthologie traduite et présentée par René R. Khawan. Éditions Phébus, Paris, 1995. pp. 161.)



Escrito por Jean Cristtus Portela às 04h56
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Un travail

L’exhibitionnisme est l’activité, le travail (dans le meilleur sens marxiste) du narcissiste. Cela n’empêche pas, bien sûr, d’avoir plusieurs narcissistes en chômage. Orgueil ou timidité?



Escrito por Jean Cristtus Portela às 21h22
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Maior o esforço, menor a culpa

Em um depoimento que fiz para meu amigo A. – forma de me desculpar pela minha ausência absurda e de me iniciar na escrita da gente do Oulipo – resolvi banir justamente a letra “a” do menu. Pouca coisa sobrou, como se pode imaginar, já que a língua portuguesa tem “a” em tudo o que é borda.

Georges Perec (1936 -1982) foi o que levou mais a sério o jogo de coerções (lipogramas) envolvendo a letra “e” (o “a” francês), que, na verdade, foi iniciado por Raymond Queneau (1903-1976) e praticado por Jacques Roubaud (1932) e por Marcel Bénabou (1939), que segundo o próprio, por pouco não dividiu a autoria de La Disparition com Perec.

Quando Perec publicou La Disparition  em 69, muitos foram os que não deram a mínima importância a esse experimento de fôlego: um romance inteiro no qual não aparece a letra “e” (salvo na vocalização, como em "j’ai", por exemplo). Ainda hoje, um ou outro imbecil sem humor questiona a validade dessa empreitada. Desafios, Perec os aceitava sempre e os conduzia com obsessão, prova disso é que, após La Disparition, ele perpetrou uma loucura ainda mais ambiciosa, a escritura de Les Revenentes (1972), um livro todo escrito com a letra “e”.

Por vezes, quando me canso de minha pesquisa, “quand j’en ai ras le bol”, passo algumas horas, mesmo alguns dias, a cozinhar, a ver TV e a traduzir textos que me tocam, mas que não me servem no momento em nada. A dificuldade de tradução desses textos que povoam as minhas horas vagas ajuda a expiar a culpa que sinto por não estar fazendo o que preciso fazer: maior o esforço, menor a culpa (quase o mesmo esquema do bom Gregório de Matos: “Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,/ Da vossa piedade me despido,/ Porque quanto mais tenho delinqüido,/ Vos tenho a perdoar mais empenhado...”).

Traduzir as poucas linhas abaixo de La Disparition foi uma aventura que não me deixou o menor traço de culpa, justamente porque me custou boas horas de intenso trabalho.

Para me manter nos limites do jogo e renunciar completamente ao “a”, tive que modificar os tempos verbais e alguns dêiticos espaciais ("aqui", "lá") e temporais ("agora", "antes"), dentre outras palavras que têm um significado preciso e que são, infelizmente, forradas de “as”.

Há alguns anos, venho pensando o trabalho do tradutor como um tráfico (o termo é empregado aqui com todas as suas letras de nobreza). E persisto nessa metáfora: é preciso que alguém faça o trabalho “sujo” com a maior classe possível para assegurar o bem geral da Nação.

(Enquanto traduzia, pensava todo o tempo em F., com quem tive ocasião de conversar certa vez longamente sobre a obra de Perec. Dedico a ele esta tentativa magra de tradução, para que ele não esqueça jamais o quanto nossos encontros foram e são decisivos no meu aprendizado.)

*

INÍCIO

Onde entenderemos, bem depois, que começou o Inferno

Três bispos, um religioso judeu, um coronel pedreiro-livre e um trio de reles politiqueiros servos de um grupo de gringos do Norte, dizem pelo televisor e depois por Internet que corremos o risco de morrer de fome, promovendo o terror entre o povo. De início, crê-se que o burburinho é frio. “É certo que é por veneno”, ouviu-se de muitos. O dito correu solto. Todos com seus tocos em riste: “E nosso sustento?”, urrou o povo, exigindo um retorno dos chefes, dos ricos e dos poderes públicos. O povo rebelou-se e conspirou em todos os terrenos. O sol posto, recolhidos em seus leitos, nenhum milico flertou com o perigo.

Em Mucurí, depredou-se um prédio público. Em Bento, pilhou-se um estoque, onde se encontrou peixe, leite, quilos de Bis e muito milho. Só que tudo podre.

*

AVANT-PROPOS

Où l'on saura plus tard qu'ici s'inaugurait la Damnation

Trois cardinaux, un rabbin, un amiral franc-maçon, un trio d'insignifiants politicards soumis au bon plaisir d'un trust anglo-saxon, ont fait savoir à la population par radio, puis par placards, qu'on risquait la mort par inanition. On crut d'abord à un faux bruit. Il s'agissait, disait-on, d'intoxication. Mais l'opinion suivit. Chacun s'arma d'un fort gourdin. "Nous voulons du pain ", criait la population, conspuant patrons, nantis, pouvoirs publics. Ça complotait, ça conspirait partout. Un flic n'osait plus sortir la nuit.

A Mâcon, on attaqua un local administratif. A Rocamadour, on pilla un stock : on y trouva du thon, du lait, du chocolat par kilos, du maïs par quintaux, mais tout avait l'air pourri.

 


Georges Perec

Tradução de Jean Cristtus Portela



Escrito por Jean Cristtus Portela às 23h36
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Pena, pena

Não conhecendo nenhuma tradução francesa dos poemas de António Botto (1897-1959) - com exceção de “Não me chamem pelo nome”, que Mísia gravou em português e mandou traduzir para o francês para o lançamento de Garras dos Sentidos (1998) na França - decidi cometer um crime (in)útil: resolvi traduzir a canção 10 de seu belo Canções (1921).

*

O português de António Botto alia toda a tradição lírica portuguesa a um falar franco, simples, popular, no limite do "literário". Botto é uma espécie de grego desgarrado em Portugal (que se mudou para o Brasil em 47, onde morreu atropelado, no Rio de Janeiro). Fernando Pessoa, que traduziu Canções para o inglês em 30, não deixou de notá-lo e de fazer conhecer seu valor, como a seguinte frase atesta (até demais): “É o único português, dos que conhecidamente escrevem, a quem a designação de esteta se pode aplicar sem dissonância” (António Botto e o ideal estético em Portugal, de 1922).

*

O principal desafio na tradução desse poema – fora o desafio inglório de traduzir um poema de sua própria língua para uma língua na qual não se é nativo – foi encontrar uma solução aceitável em francês para a palavra “pena”. Para começar, era preciso tentar compreender a “pena” do fino narrador do poema, que impunha, de cara, um problema de leitura:

Não é ciúme o que eu tenho.
É pena (1),
Uma pena (2)
Que me rasga o coração.

Qual “pena” estaria aí em jogo? Compaixão (piedade), sofrimento, desprezo? Usei um critério de desempate que, se não é o mais acertado, é ao menos, o que creio mais "textual" (na verdade, "semiótico", mas hesito em escrever essa palavra quanto estou à paisana). Ao invés de cavar sentidos nas páginas estáticas de um dicionário, optei pelo dinamismo da construção, fiando-me no fato de que a “pena” em questão surge nesse poema como uma alternativa/contraponto ao “ciúme”.

*

Sabemos, o “ciúme” é um zelo (uma atenção) por aquilo que imaginamos poder ser privados, um medo do que um terceiro, um estranho ao nosso desejo, pode vir a provocar naquilo que acreditamos estar no domínio estrito do controle amoroso: o amado.

“Mas não é ciúme” o que aqui se sente... É “pena”. Uma “pena” que é compaixão e sofrimento por si mesmo (“chorei...”), desprezo pelo outro (“Essa mulher/ Nunca pode merecer-te”) e desprezo, ou melhor, censura, reprovação do desperdício, em relação ao amado (“...respondo que te enganas”). E, como o narrador parece sugerir, sentir "pena" é melhor e ao mesmo tempo pior do que sentir "ciúme".

Resolvido provisoriamente o problema da leitura do poema em português (ou seja, forçada a barra), eu pude passar a sua tradução.

*

Em francês, quando dizemos que sentimos “de la pitié”, na maioria dos casos (talvez em todos os casos) estamos falando de piedade não-irônica, de compaixão. A expressão não alcança o tom pejorativo que é tão freqüente em português, exceto em construções como “Quelle pitié!” e “ça fait pitié...”, que eu saiba. Certamente, não estamos diante de uma palavra sem nuanças, sem espessura, mas o fato é que a nossa "pena" é muito mais sofrida/vivenciada do que a "pitié" francesa. A locução “ter pena”, por exemplo, é traduzida em francês como “regreter”, que vem de “regret” (“saudade”, “remorso”/”arrependimento”, “decepção”).

(“Regret” é sem duvida umas das palavras mais polivalentes da língua francesa para exprimir o descontentamento consigo e com o outro.)

Desde a primeira vez que li esse poema, ficou muito claro para mim que nele Botto procurou explorar o semantismo rico de “pena” (o positivo, da compaixão e o negativo, do desprezo) e que uma tradução que não contemplasse esse esforço seria insuficiente. Foi aí que me veio a idéia profana de verter a “pena1” como “pitié” (termo positivo) e a “pena2” como “regret” (termo positivo/negativo, sobretudo negativo). O resultado dessa empreita pode ser visto abaixo, seguido do original português.

 

Les chansons

  de António  Botto


10


Ce n'est pas de la jalousie que j‘éprouve,
C'est de la pitié.
Un regret
qui me déchire le coeur.

Cette femme
ne peut jamais te mériter;

Elle ne vit de ta vie,
ni ne tient dans la fantaisie
de ta sensibilité.
- Mais qu'elle est belle! Tu l’affirmes
Et moi, je réponds que tu te trompes

La beauté -
a toujours été
un motif secondaire
dans le corps que nous aimons;
La beauté n'existe pas,
Et quant elle existe, elle ne dure pas.
La beauté -
N'est plus que le désir
frémissant qui nous secoue...
- Le reste, c'est de la littérature.

Je les connais bien, toi et tes nerfs;
Ils ont marqué de taches de feu
Ma brune chair;
- Cette chair qui rappelait
Des filets de lumière automnale,
Dorée, sans consistance,
À se rapprocher de la fin…

Je connais déjà ton sexe,
Tu m’as déjà aimé.

La fraîcheur de ton baiser
Et la force de tes bras,
Tout cela j’ai déjà scruté…

Ce n'est pas de la jalousie que j‘éprouve;
Mais quand je t’ai vu avec elle
Sans que personne ne m‘ait vu, j’ai pleuré…

* * *

10

Não é ciúme o que eu tenho.
É pena,
Uma pena
Que me rasga o coração.

Essa mulher
Nunca pode merecer-te;

Não vive da tua vida,
Nem cabe na ilusão
Da tua sensibilidade,
- Mas é bela! Tu afirmas
E eu respondo que te enganas

A beleza-
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza -
Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode...
- O resto, é literatura.

Conheço bem os teus nervos;
Deixaram nódoas de lume
Na minha carne trigueira;
- Esta carne que lembrava
Laivos de luz outonal,
Doirada, sem consistência,
A aproximar-se do fim...

Eu já conheço o teu sexo,
Tu já gostaste de mim.

A frescura do teu beijo
E o poder do teu abraço,
Tudo isso eu devassei...

Não é ciúme o que eu tenho;
Mas quando te vi com ela
Sem que me vissem, chorei...



Escrito por Jean Cristtus Portela às 03h46
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A exigência de nossos mais caros hábitos

Embora eu não seja propriamente um militante, confesso que tenho especial prazer em ler qualquer amostra de “queer literature”, como dizem nos EUA.

(Acabei de me lembrar de umas linhas de Barthes na qual ele dizia ter achado um filme qualquer “excessivamente heterossexual". É fato, nossos mais caros hábitos nos tornam, digamos, exigentes.)

Eu tenho todo tipo de reserva aos rótulos anódinos que a criação literária recebeu em certos círculos. No entanto, se não sou plenamente favorável a classificações do tipo “Literatura Gay” ou, ainda, “Literatura Feminista”, não ignoro que sensibilidades diferentes podem configurar expressões também distintas.

O que prefiro defender – sem muita veemência, já que não estou diante de um tema que realmente me apaixona – é que é mais do que duvidoso afirmar que exista uma sensibilidade comum a um grupo social que mereça ser decalcada e celebrada ao lado de palavras como “Literatura”, “Arte”, “Criação”.

(Momento de Sociologia barata. Quando um grupo faz de sua sensibilidade um adjetivo e lhe tasca sem pestanejar ao lado de qual seja o substantivo, ele o faz como estratégia de defesa e/ou ataque. Não é à toa que os militantes, os governantes e os comerciantes amam as classes, subclasses, subsubclasses, etc-etc.

Comecei a dizer isso para justificar – como se precisasse e como se ainda tivesse idade pra isso - a tradução de um poema de Alice Bloch que fiz há uns 15 dias. Lendo um livrinho besta, mas que muito me divertiu (The Penguin Book of Homosexual Verse, editado por Stephen Coote, Penguin Books, 1983), descobri um poema que me pareceu absolutamente notável, peça genuína de vida e imaginação.

Neste poema, a forma da expressão desempenha um papel secundário: inútil procurar nele achados rítmicos ou prosódicos. Em verdade, o que me pareceu admirável no poema é a maneira como ele recorta a experiência e conserva sua densidade, sua espessura afetiva.

Não me dei o trabalho de digitar o texto original, pois ando morto de preguiça:

 

SEIS ANOS

               para Nancy

 

Uma amiga diz que somos
“casadas”, “um velho casal”

Eu me esquivo
você não entende
No caminho de casa
você me pergunta por que fiquei tão perturbada
Nós temos algo
como aquilo que ela diz
diz você       Eu digo
Não

Nós não somos casadas
Ninguém abençoou
esta união       ninguém nos fez
um chá de cozinha
Nós compramos nossa própria batedeira
Construímos uma vida em comum
nas brechas das leis

Seis anos
O que nos manteve juntas
um cartógrafo       uma força magnética
nossos corpos       nosso papo
o vento       uma fome 

Eu quis: sua energia despojada
controle       “poder de decisão”
honestidade       seu passado
de atleta

Vocês quis:
minha “cultura”
gentileza       receptividade

É claro que isso tudo estava condenado ao fracasso
Você trouxe à tona
a minha raiva       eu resisto
seu controle       sua energia
me extenua       minhas mãos
são quentes demais pra você       você ganhou
peso, eu perdi       minha gentileza
é desonesta       sua honestidade
é cruel       você odeia
minha leitura       eu odeio
sua moto

No entanto algo mudou
Você se tornou mais gentil
E eu mais decidida
Nós transitamos numa boa
por nossa casa toda
e falamos nossas línguas
Não há nada que
não possamos dizer uma a outra

O chão é firme
sob nossos pés
nós conhecemos esta paisagem
nós não temos escolha
quanto ao destino       apenas quanto à estrada
mistério diário   a cada dia
um novo mapa do mesmo terreno

 

Alice Bloch (1947-?)

Tradução de Jean Cristtus Portela



Escrito por Jean Cristtus Portela às 02h09
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




La lois d’or

Je suis en France depuis 43 jours*. Je n’ai pas encore trouvé une raison pour aimer ce pays. Au fond, je n’arrive pas à nourrir une véritable admiration pour la France. Tant pis (pour qui?), parce qu’il n’y a pas d’amour sans admiration (c’est la vérité absolue qu’on peut lire dans le monde entier, quel soit le magazine ado ou le programme-dominical-télévisé-de-variétés-pas-beaucoup-chrétien). Il était vrai que les Français étaient individualistes, fatalistes, réservés, impatients, polis, beaux, minces, en un mot, irrésistibles. Il nous faut injurier les objets qu’on ne peut pas avoir. Voilà la lois d’or de toute psychanalyse charlatane (mais opératoire).

* Le monde bouge. Aujourd’hui, après presque 10 mois là, je ne pourrais pas dire une chose pareille. En fait, j’ai appris à admirer les Français et (bien sûr) la France (pas forcément dans cet ordre quand même!). L‘admiration est souvent le premier pas (le dernier, si tu veux) vers l’indifférence. Existera-t-il meilleure école d’indifférence que la France? J’en doute.



Escrito por Jean Cristtus Portela às 01h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




La chair devenue mémoire

C'est à José Paulo Paes (1926-1998, traducteur et poète brésilien déjà décédé - plutôt bon traducteur, à mon avis) que je dois la connaissance du poète grecque Constantin Cavafis (1863-1933, "Konstantinos Kaváfis", "à la brésilienne", avec toutes les guillemets possibles).

Cafavis est le poète de la chair devenue mémoire. Il avait une manière toute à lui de décrire des rencontres, des baises fortuites, des malentendus quotidiens de la passion, bref, la vie telle quelle se présente - si jamais on la regarde par le trou de la serrure de l'amour (c'est vrai, des fois je suis un petit peu ringard!).

Voici un poème de K. C. qui m'a vraiment ému lorsque je l'ai lu pour la première fois.

 

POUR RESTER


Il devait être une heure du matin,
ou une heure et demie.

                               Dans un coin du bistrot;
derrière cette cloison en bois.
En dehors de nous deux la salle était déserte.
Une lampe à pétrole l’éclairait faiblement.
À la porte dormait le garçon, recru de fatigue.

Personne ne pouvait nous voir. Mais déjà
Nous étions enflammés au point
D’être incapables de prendre aucune précaution.

Les vêtements s’entr’ouvrirent - nous n’en portions guère,
à cause de la divine canicule du mois de Juillet.

Plaisir de la chair, par-dessous
Les vêtements entr’ouverts;
mise à nu de la chair - dont la vision si brève
a traversé vingt-six années; et qui est maintenant revenue
pour rester dans ce poème.

(1919)


Traduction de Dominique Grandmont



Escrito por Jean Cristtus Portela às 19h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




La seule condition

Aujourd'hui, après avoir beaucoup discuté avec C. sur les « conditions d‘amabilité » (j’essaie d’être le plus abstrait  possible, c’est-à-dire discret) , je me suis lancé à traduire deux vers de Jaime Gil de Biedma, un poète espagnol que j'aime fort:


"Para saber de amor, para aprenderle,

haber estado solo es necesario".


Pour savoir de l'amour, pour l'apprendre,
ou
Pour connaître l'amour, pour le comprendre,

il faut qu'on ait (déjà) été (tout) seul.
ou
Il est nécessaire d'avoir été en solitude.
ou
c'est nécessaire d'avoir éprouvé la solitude.

 

Pour moi, c'est pas évident ce choix. Je n'ai pas même pu choisir la bonne version.

Est-ce que je suis nul en amour? Pas complètement!

Je suis nul en français (au moins je l’espère!).



Escrito por Jean Cristtus Portela às 16h17
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Parole de scout!

Je suis fatigué, je suis épuisé (non, je vais pas chanter "Je suis malade"). Une nuit blanche de plus et je craque.

(Le bloggeur est l'accro de l'aveu, il dit "tout" ce qui peut être dit. Il dit tout ce qu'un blog peut dire: "Je soussigné narcissiquement déclare... patati, patata.. mon cul... ma guele pas mal du tout... nous sommes tous dans la merde... etc, etc...sans langue de bois, je suis foutu... merde! Amen. Parole de scout!". Qu'est-ce que simple la syntaxe d'un blog! Mais c'est que de la syntaxe chiante du nombril? Oui, bien sûr.)



Escrito por Jean Cristtus Portela às 15h22
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Deux notes détachées

Première

Le commentaire de L. au post d'hier est vraiment mignon, certes, mais absolument naïf. Le gars pense (il arrive même à affirmer) que l’écriture sert à carrément dévoiler le Mystère, à tout avouer.

Mais non! C’est juste le contraire: le sens (le sens qu’on cherche, qu’on guette) ne naît qu’en cachette.


Deuxième

Quand j'écris en français, j’ai l’impression de sauter sans parachute.  Je fabrique le raisonnement, je conçois l’image et… je plonge… à l’aveugle.

Bien sûr, il y a des souvenirs de certains dialogues piqués par hasard dans la queue au marché, il y a des grammaires et des dictionnaires rarement mis à côté, etc., mais, à part tout ça, il n’y pas de repères vraiment fiables. Quand on sort du domaine matelassé de notre langue maternelle, on est toujours sous le coup de l‘inexactitude. On est au Royaume Sacré du Blablabla, à la Terre du Bidon. On écrit, on parle… et on risque ne rien dire… Bref, voilà mon pire cauchemar... ça se voit, non?



Escrito por Jean Cristtus Portela às 05h33
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  [Acontecimentos]
  [Alapage.com]
  [Algum Haiku]
  [Diatribe]
  [Livraria Cultura]



O que é isto?
BlogBlogs.Com.Br